Nova iniciativa da IOIBD, publicada no The Lancet Gastroenterology & Hepatology, atualiza as recomendações para Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa com foco em metas acionáveis, metas adjuvantes e no cuidado centrado no paciente
Foi publicado em 19 de outubro de 2026, no The Lancet Gastroenterology & Hepatology, o STRIDE-III (Selecting Therapeutic Targets in Inflammatory Bowel Disease) — a terceira edição da iniciativa da International Organization for the Study of IBD (IOIBD), que atualiza as estratégias de tratamento da Doença de Crohn e da Retocolite Ulcerativa com base nas mais recentes evidências científicas.
O documento é resultado de um processo rigoroso que combinou revisão sistemática da literatura (de julho de 2019 a abril de 2025), levantamento com especialistas da IOIBD e do grupo pediátrico Porto, e votação Delphi modificada — com consenso de, no mínimo, 75% de concordância. Ao todo, 60 dos 79 membros da IOIBD e 23 de 30 gastroenterologistas pediátricos participaram das pesquisas que embasaram as recomendações.
O que muda com o STRIDE-III
O STRIDE-III inova ao distinguir três categorias de metas terapêuticas:
- Metas acionáveis (actionable targets): respaldadas por estudos treat-to-target; o não alcance deve levar à mudança de terapia após otimização do tratamento;
- Metas adjuvantes (adjunctive targets): associadas a desfechos favoráveis, mas sem evidência intervencional direta; orientam a otimização e o monitoramento mais rigoroso, sem necessariamente exigir troca de medicamento;
- Metas centradas no paciente (patient-centred targets): refletem o bem-estar do paciente e devem ser manejadas por decisão compartilhada, considerando a inflamação e causas alternativas.
Entre os principais avanços da nova edição, destacam-se:
- Urgência evacuatória incluída como desfecho clínico precoce relatado pelo paciente (escala NRS 0–10);
- Fadiga incorporada formalmente como meta centrada no paciente;
- Calprotectina fecal com limiar refinado para < 200 µg/g, sendo < 100 µg/g indicativo de controle mais profundo;
- Remissão histológica (na RCU) e remissão transmural (na Doença de Crohn) elevadas à condição de metas adjuvantes;
- Reforço da remissão endoscópica como meta de longo prazo (SES-CD ≤ 2 na DC e MES = 0 na RCU), com base em evidências como o estudo VERDICT, que mostrou superioridade do tratamento guiado por remissão endoscópica em relação ao manejo baseado apenas em sintomas.
Um caminho estruturado no tempo
Outra contribuição central do STRIDE-III é a organização das metas ao longo da linha do tempo terapêutica:
- Estágio imediato (1–2 meses): resposta clínica
- Curto prazo (2–3 meses): remissão clínica
- Intermediário (4–6 meses): remissão clínica sustentada e biomarcadores
- Longo prazo (7–12 meses): remissão endoscópica, profunda e qualidade de vida
O documento também traz estratégias de adaptação para cenários com recursos limitados, mantendo as mesmas metas, porém ajustando os métodos de monitoramento — um aspecto particularmente relevante para a realidade assistencial brasileira.
Impacto para a prática clínica no Brasil
Ao consolidar de forma padronizada e baseada em evidências as metas de tratamento, o STRIDE-III oferece aos profissionais de saúde um referencial consistente para o manejo treat-to-target das DII — apoiando decisões clínicas mais precisas e a otimização dos resultados terapêuticos para pacientes com Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa.
Artigo de referência: Turner D, Ricciuto A, Bar-Asher S, et al. Updated treatment targets in inflammatory bowel disease (STRIDE-III): an initiative of the International Organization for the Study of IBD. The Lancet Gastroenterology & Hepatology, publicado online em 19 de outubro de 2026.
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