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Portal Científico

Highlight do Ecco 2017

Mauro Bafutto

O 12th ECCO 2017 que aconteceu em Barcelona, apresentou muitas novidades e excelentes temas de atualização nas doenças inflamatórias intestinais (DII). O cartão de visitas do que poderia ser o evento , foi apresentado logo na abertura, por Javier Gisbert e Juan Panés (ambos da Espanha).

Um dos destaques do primeiro dia foi a sessão sobre fatores genéticos e ambientais na DII. Charlie Lees (Edinburgh, Reino Unido) apresentou uma interessante palestra sobre nutrição e aditivos alimentares nas DII. Ressaltou que a alimentação é capaz de modificar a microbiota intestinal e esta disbiose poderia estar relacionada às DII. Dietas ricas em gorduras aumentariam o risco de Doença de Crohn (DC) e Retocolite (RCU) enquanto dietas ricas em frutas e fibras parecem diminuir este risco. Mais importante ainda foram estudos em ratos que demonstraram que emulsificantes e aditivos alimentares aumentaram o risco de desenvolvimento de DII em ratos sadios.

Nesta mesma sessão Stephan Vavricka (Zurique, Suiça) proferiu excelente palestra sobre “os venenos cotidianos: tabagismo, poluição, stress e vida sedentária”. Ilustrou inicialmente a já conhecida associação entre tabagismo e a DC e de certo efeito “protetor” na RCU, mas foi além e demonstrou que o tabagismo pode modificar a microbiota intestinal e que logo após sua interrupção, ocorre um aumento expressivo de Firmicutes e Actinobactérias com diminuição de Proteobactéria e Bacterioidetes. Quanto à poluição ambiental, esclareceu que em geral não esta associada a aumento do risco de DII. Entretanto, foi verificado que exposição residencial ao SO2 aumentaria o risco para RCU, enquanto que a exposição ao NO2 aumentariam o risco de DC em adultos jovens e crianças. Em relação ao stress, apresentou sua também conhecida relação com as recidivas da DII, e demonstrou estudos revelando que, em geral, não há evidência para eficácia da psicoterapia como tratamento das DII. Destacou, entretanto, que a terapia cognitiva comportamental, com gerenciamento do stress, foi exceção, sendo este considerado o único método psicoterápico eficaz no tratamento da DII. Quanto à atividade física, embora apresente melhora da qualidade de vida, não apresenta efeito na atividade da DII.

Ainda no primeiro dia dois estudos selecionados para apresentação oral mereceram destaque: O estudo apresentado por G. Fiorino (Roma, Itália) – The PROSIT cohort of Infliximab in IBD - que demonstrou boa eficácia e segurança, em seguimento de longo prazo do biossimilar. E outro estudo apresentado por L. Pouillon (Leuven, Bélgica) de seguimento a longo prazo, denominado TAXIT (Trough Concentration Adapted Infliximab Treatment), que demonstrou a correlação da durabilidade de resposta e a concentração sérica do Infliximabe na evolução da DII.

Uma das melhores sessões do ECCO 2017 foi apresentada no final do dia, que abordou a situação dos pacientes vulneráveis (crianças, gestantes, idosos, pacientes com câncer e comorbidades psicológicas) – “Vulnerable patients: 10 burning questions in IBD”. Dentre outros merece destaque especial, nesta sessão, a apresentação de Janeke van der Woude (Roterdam, Holanda) sobre o uso de anti-TNF na gravidez. Neste estudo foi verificada a concentração do anti-TNF no cordão umbilical, e que o Anti TNF deve ser interrompido durante a gestação, mas em períodos diferentes , de acordo com o anti-TNF utilizado. O melhor momento para interromper o Infliximabe seria entre a semana 22 – 24,e o Adalimumabe entre a semana 33-36.

O segundo dia começou com a apresentação de vários estudos importantes, com destaques para os bons resultados de eficácia e segurança do Ustekinumabe para DC, apresentado por B.G.Feagan (Londres, Inglaterra), outro estudo que observou a melhora dos sintomas e dos biomarcadores em pacientes refratários ao anti-TNF após tratamento com Etrolizumabe (HICTORY study) apresentado por L.Peyrin-Biroulet (Nance, França) e um trabalho que identificou que o uso de Vedolizumabe no pré-operatório de pacientes com RCU submetidos à proctocolectomia e anastomose com bolsa ileoanal, não esta associado a complicações infecciosas pós-operatórias a curto prazo, apresentado por M. Ferrante (Leuven, Belgica).

Outras três apresentações foram interessantes neste dia: O estudo apresentado por A. Gils (Leuven, Bélgica) que demonstrou que a exposição recente ao anti-TNF, é fator preditor para baixa concentração do Vedolizumabe em pacientes com DC; o apresentado por P. Dulai (San Diego, USA) que observou que a oxigenioterapia hiperbarica (OXHB) é um método seguro e eficaz, para pacientes hospitalizados com RCU moderada e grave - este estudo foi duplo cego e controlado, em que um grupo de pacientes recebeu OXHB e corticoide comparado a outro grupo que recebeu corticoide, com resultados que revelaram uma maior taxa de resposta e remissão, redução da necessidade de biológicos e de colectomias no grupo OXHB e corticoide; e, finalmente, o estudo apresentado por S. Vermeire (Leuven, Bélgica) sobre o filgotinibe, um inibidor seletivo JAK 1 (FITZROY study), com bons resultados na manutenção da resposta clínica em pacientes com forma moderada ou grave da DC .

O terceiro dia iniciou com uma sessão científica também sobre inibidores JAK onde J. Panés (Barcelona , Espanha) apresentou os bons resultados de segurança e tolerabilidade do Tolfacinibe oral (Estudo fase 2 , open label com 48 semanas de duração) e da eficácia e segurança também desta medicação na terapia de manutenção de pacientes com RCU (Estudo fase 3 , randomizado e controlado).

A última sessão científica versou sobre o conteúdo luminal intestinal (Gut luminal content – more than just bacteria), sendo destaque o estudo apresentado por S. Costello (Adelaide, Austrália) sobre transplante de material fecal (TMF) na RCU leve ou moderada (Short duration, low intensity pooled faecal microbiota transplantation induces remission in patients with mild-moderate active Ulcerative Colitis: A randomized controled Trial). Neste estudo, o TMF (Grupo doador) foi anaerobicamente preparado, sendo composto por 25% de fezes de doadores sadios, 65% de solução salina e 10% de glicerol . Sua administração ocorreu por meio de colonoscopia (200ml) e posteriomente enema (100ml – 2x) na semana 1. No grupo placebo foram utilizadas fezes do próprio paciente, aerobicamente preparada, com a mesma proporção de fezes, solução salina e glicerol, além da mesma quantidade e sequência de infusão por meio de colonoscopia e posterior enema. Os resultados foram aferidos e comparados na semana 8, com resposta clínica (> 3 pontos de redução do Mayo score) de 58% para o grupo doador e 26% para o placebo e remissão endoscópica (Mayo score endoscópico ≤ 1) de 50% do grupo doador e 17% para o placebo.

Varias outras atividades foram desenvolvidas durante o ECCO 2017. Os simpósios satélites apresentaram temáticas variadas e atualizações muito produtivas, como as novas possibilidades de tratamento na RCU e na DC, o impacto das DII para a sociedade e para os pacientes e o uso dos biossimilares. Entretanto o simpósio que chamou muita atenção foi sobre DC perianal (Perianal Crohn´s Disease : Exploring a serious burden) presidido por Michael Kamm (Melbourne, Austrália) que abordou juntamente com Gert Van Assche e Andre D´Hoore (ambos de Leuven, Bélgica), as possibilidades terapêuticas das fístulas perianais complexas. Coube a Alessandro Armuzzi (Roma, Itália) falar sobre as terapias futuras e dos resultados do tratamento por meio de células tronco. Neste estudo foram produzidas células tronco a partir de células do tecido adiposo após lipoaspiração (ASCs – Adipose – derived Stem Cells) . Foram realizadas injeções periluminais próximas a todo trajeto fistular em 212 pacientes com fístula perianal complexa e refratária, que foram randomizados para receber ASCs ou placebo . Os pacientes foram reavaliados após 24 e 52 semanas e verificaram que 49,5% e 54% dos pacientes respectivamente que receberam ASCs tiveram fechamento completo das fístulas, com resultado estatisticamente significativo em relação ao placebo.

Durante o congresso foi distribuída também, a concorrida última edição da revista Journal of Crohn´s and Colitis, no qual foi publicado o terceiro consenso de diagnóstico e tratamento da DC e as recomendações do ECCO sobre o uso de biossimilares na DII .

A delegação brasileira esteve presente em bom número durante o evento, com apresentação de trabalhos e inclusive na programação, com as excelentes apresentações do colega Paulo Kotze (Curitiba, Brasil), onde, dentre outros temas, proferiu palestra sobre fissura anal e hemorroidas na DC.

SBAD 2015

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